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Pessoas que andam depressa tendem a ser menos felizes, mas mais intensas e focadas nos seus objetivos do que aquelas que andam devagar.

Homem segurando café e caderno a caminhar por rua arborizada, outro homem ao fundo com vaso de plantas.

Estás a descer uma rua movimentada e voltas a reparar nisso. Aquela pessoa a cortar a multidão, olhos fixos em frente, braços a bombear, quase irritada por existirem outras pessoas. E depois, mesmo ao lado, alguém a avançar devagar, quase a flutuar, com auscultadores, a ver o mundo como se não houvesse pressa nenhuma. Um parece stressado; o outro parece… estranhamente tranquilo. O mesmo passeio, a mesma cidade, duas vidas completamente diferentes expostas na forma como os pés tocam no chão. Os cientistas começaram a medir isto - e os resultados são surpreendentes. Quem anda depressa tende a ser menos feliz, mas mais intenso e fortemente focado nos objetivos. Quem anda devagar, em média, inclina-se para o lado oposto.

Às vezes, a tua velocidade a andar diz coisas sobre ti que a tua boca nunca dirá.

O que a tua velocidade a andar revela discretamente sobre ti

Fica numa estação de comboios em hora de ponta e quase consegues ler personalidades pelo som dos passos. Há os “apressados”: rápidos, decididos, a serpentear por entre espaços, a suspirar quando alguém pára à frente deles. E há os “derivantes”: mais lentos, mais flexíveis, a parar para ver o telemóvel ou levantar os olhos para um cartaz. Um grupo move-se como se a vida fosse um prazo. O outro move-se como se a vida fosse uma playlist.
Investigadores que acompanharam o ritmo da marcha em grandes populações continuam a encontrar o mesmo padrão: a velocidade muitas vezes esconde tensão, e a lentidão muitas vezes protege uma espécie de contentamento do dia a dia.

Um grande estudo no Reino Unido, com mais de 400.000 pessoas, fez uma pergunta simples: “Costuma andar a um ritmo lento, médio ou acelerado?” As pessoas que disseram andar a um ritmo acelerado tinham maior probabilidade de ser ambiciosas, orientadas para a carreira e de se descreverem como pessoas de alto desempenho. O passo delas combinava com a agenda. No entanto, estes mesmos “andarilhos” rápidos também relataram níveis mais elevados de stress, menos tempo para lazer e sentimentos de pressão mais frequentes.
Do outro lado, quem se declarou andar devagar era um pouco diferente: menos stress percebido, ligeiramente mais satisfação com a vida, maior probabilidade de dizer coisas como “levo a vida como ela vem”. Não eram necessariamente menos capazes - apenas menos guiados pelo relógio.

Os psicólogos sugerem que a velocidade a andar reflete o tempo interno da nossa mente. Quem anda depressa tende a ter o que alguns chamam de “urgência do tempo” - a sensação constante de que está atrasado para alguma coisa, mesmo quando não está. Esse impulso pode ajudá-los a atingir objetivos, procurar promoções e mudar de cidade se for preciso. Também os empurra para a ansiedade, a impaciência e para a sensação de que descansar é “tempo perdido”.
Quem anda devagar costuma carregar um guião diferente: presença acima de produtividade. Também têm objetivos, mas com o volume mais baixo. O mesmo passeio torna-se dois mundos diferentes dependendo de quão depressa o teu sistema nervoso está a mover-se.

Consegues mudar o ritmo sem perderes quem és?

Se és naturalmente rápido a andar, não tens de começar de repente a vaguear como um turista numa tarde de domingo. Um pequeno hábito pode mudar o tom emocional da tua velocidade. Experimenta isto: escolhe uma “caminhada de transição” no teu dia - da estação para casa, do escritório para o autocarro - e reduz conscientemente o ritmo em 20–30%. Não pares, não transformes isto num grande “ritual de mindfulness”. Apenas suaviza os passos e alarga o olhar.
Deixa os olhos pousarem em coisas que normalmente ignoras: uma montra, um cão, o céu entre edifícios. Continuas a avançar, continuas a ser tu - só que com arestas menos afiadas.

O perigo não é andar depressa. O perigo é andar depressa o tempo todo. É aí que a intensidade, lentamente, se transforma em agitação, e começas a responder torto a desconhecidos que se atrevem a ficar no teu caminho. Do outro lado, andar sempre devagar pode transformar-se numa evasão silenciosa da responsabilidade - uma forma de esticar o tempo para não teres de enfrentar o que te espera. Todos já estivemos aí: aquele momento em que os teus pés aceleram ou abrandam só para combinar com aquilo que estás a tentar não sentir.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ainda assim, tentar uma ou duas vezes por semana pode lembrar ao teu sistema nervoso que tem mais do que uma mudança.

Quando os psicólogos perguntam a pessoas de alto desempenho sobre o seu ritmo, muitas descrevem a velocidade como uma espécie de armadura. Um executivo disse-me:

“Eu ando depressa para que ninguém me pare. No momento em que abrandar, as pessoas começam a pedir-me coisas, e eu já estou a afogar-me.”

Isto não é raro. Quem anda depressa muitas vezes protege a sua intensidade com movimento. Quem anda devagar, em contraste, por vezes protege a sua paz com a lentidão - como se o tempo não os pudesse tocar se recusarem acompanhar a sua velocidade. Entre estes dois extremos, há uma zona intermédia.
Podes começar a explorá-la testando estes pequenos movimentos:

  • Escolhe uma caminhada diária para ser 10% mais lenta do que o habitual, só como experiência.
  • Noutro dia, acelera deliberadamente um passeio descontraído e repara como a tua mente reage.
  • Usa os primeiros 30 segundos de qualquer caminhada para reparar nos ombros e no maxilar, e depois relaxa ambos.
  • Uma vez por semana, anda sem o telemóvel na mão e vê que pensamentos surgem.
  • Caminha ao lado de um amigo e deixa que o ritmo natural dele lidere, em vez do teu.

Cada pequena mudança tem menos a ver com condição física e mais a ver com encontrares-te onde os teus pés já estão.

Repensar o sucesso, um passo de cada vez

Esta ideia de que quem anda depressa é menos feliz mas mais orientado para objetivos fica mesmo no centro de uma tensão cultural. Aplaudimos pessoas que se movem depressa, decidem depressa, respondem depressa. Recompensamos a urgência com promoções, gostos e dinheiro. Depois viramo-nos e partilhamos frases sobre abrandar, respirar e “aproveitar a viagem”. Não admira que os nossos corpos fiquem confusos.
Para alguns, andar mais depressa é mesmo alinhar com a sua natureza. Para outros, é um disfarce que vestem para sobreviver num mundo que adora a velocidade.

Talvez a pergunta não seja “É melhor andar depressa ou devagar?”, mas “A minha velocidade a andar parece minha - ou parece pressão que apanhei emprestada de outra pessoa?” Um caminhante rápido que escolhe o seu ritmo pode ser uma força da natureza: focado, direcionado, desperto. Um caminhante lento que assume o seu compasso pode ser discretamente poderoso - calmo de um modo que estabiliza os outros. Ambos podem ter sucesso; ambos podem ser profundamente infelizes; ambos podem estar silenciosamente contentes.
O que muda tudo é reparares na história que está nos teus pés. Da próxima vez que desceres uma rua, faz esta verificação simples: estás a perseguir alguma coisa, a fugir de alguma coisa, ou estás realmente a chegar?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A velocidade a andar reflete o tempo interno Quem anda depressa tende a mostrar urgência do tempo e foco em objetivos; quem anda devagar tende a mostrar presença e menor stress Ajuda-te a ler os teus próprios hábitos como sinais, não como falhas
Ambos os extremos têm custos escondidos Andar sempre rápido (ou sempre lento) pode prender-te em stress ou evasão sem te aperceberes Incentiva-te a ajustar o ritmo conscientemente, em vez de ires em piloto automático
Pequenas experiências mudam a vivência Alterar uma caminhada diária, relaxar o corpo ou acompanhar o ritmo de outra pessoa Dá-te formas simples e realistas de reequilibrar intensidade e felicidade

FAQ:

  • Andar depressa é sempre sinal de stress? Nem sempre. Algumas pessoas movem-se naturalmente rápido e sentem-se bem assim. Torna-se preocupante quando o teu ritmo acelerado é alimentado por ansiedade constante, raiva dos outros ou a sensação de que nunca estás em dia.
  • Quem anda devagar é mesmo mais feliz? Em média, os estudos encontram uma satisfação com a vida ligeiramente superior e menor stress entre quem anda mais devagar, mas é uma tendência - não uma regra. Muitos outros fatores - saúde, rendimento, relações - também moldam a felicidade.
  • Posso treinar-me para andar a uma velocidade diferente? Sim, até certo ponto. Ao praticares deliberadamente caminhadas mais lentas ou mais rápidas em momentos específicos, podes expandir a tua zona de conforto. O teu ritmo “padrão” pode manter-se semelhante, mas a tua flexibilidade aumenta.
  • A velocidade a andar afeta riscos para a saúde? Caminhar a um ritmo vivo está associado a melhor saúde cardiovascular e maior longevidade. Ao mesmo tempo, caminhar ultra-rápido e tenso, impulsionado por stress crónico, pode jogar contra ti através de tensão arterial elevada e má recuperação.
  • E se o meu ambiente me obrigar a andar depressa? A vida na cidade, trabalhos exigentes ou a parentalidade podem acelerar o teu ritmo. Tenta criar micro-momentos - o caminho até ao carro, uma volta ao quarteirão - em que os teus passos são teus, não do teu horário.

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