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O que fazer quando percebe que tem evitado uma conversa difícil durante semanas.

Mulher sentada numa mesa de cozinha, a escrever num caderno, com um copo de água e plantas ao fundo.

Percebes isso enquanto lavas os dentes. Aquela ansiedade de baixa intensidade que tem estado a zumbir em segundo plano há dias, talvez semanas. Não é o dentista. É a conversa que continuas a prometer a ti próprio que vais ter “quando as coisas acalmarem”. Spoiler: a vida não vai acalmar. Tu é que estás a ficar melhor a arranjar desculpas pequenas e respeitáveis para não falar.

Ensaias o que vais dizer na cabeça no caminho para o trabalho. Treinas no duche. Até abres a janela da mensagem, escreves três palavras e depois fechas “para mais tarde”. A esta altura, a conversa já é maior na tua cabeça do que alguma vez precisou de ser na vida real.

Um dia, apanhas-te a ti próprio: tenho estado a evitar isto.

E, quando vês isso, já não consegues deixar de ver.

O momento em que admites que estás a evitá-la

Há um clique muito específico quando percebes que andas a fugir à mesma conversa há semanas. O teu cérebro começa a rever cada pequena fuga: a resposta falsa de “estou ocupado”, a vontade súbita de reorganizar a caixa de entrada, a forma como te voluntariaste para tarefas extra só para o calendário parecer cheio. Não foi apenas azar com o timing. Estavas a esconder-te.

Essa constatação dói um pouco. Porque gostas de pensar em ti como alguém honesto, direto, razoável. E, no entanto, aqui estás tu, a orbitar silenciosamente um tema como se fosse um planeta proibido. O primeiro passo, antes de qualquer guião perfeito ou técnica de comunicação, não é nobre. É simples: admites que tens estado a evitá-la.

Imagina isto. Um colega tem andado a ficar com o crédito de metade do teu trabalho nas reuniões. Reparaste três vezes. Depois cinco. Agora já perdeste a conta. Sempre que pensas “devia falar com ele/ela”, aparece algo “urgente”: uma mensagem no Slack, uma chamada, um relatório com prazo. Duas semanas depois, o teu manager diz: “Tens de ser mais visível.”

Nessa noite, não dormes bem. Não porque o teu colega seja terrível. Mas porque sabes que viste isto a construir-se e afastaste-te, em silêncio, da porta que te teria permitido travar a situação cedo. Esse é o custo da evitância: pequenas dentadas no teu autorrespeito e na tua tranquilidade.

A história repete-se em casa, com parceiros, amigos, irmãos. Atores diferentes. O mesmo padrão.

Evitar uma conversa raramente é sobre preguiça. Normalmente é sobre ameaça. O teu sistema nervoso está a procurar perigo: rejeição, conflito, vergonha, perda. O teu cérebro arquiva “falar disto” como “perigo de incêndio” e começa a oferecer-te um buffet de distrações. Responde a esses emails. Faz scroll um bocado. Espera pelo estado de espírito certo.

O problema é que o silêncio também causa danos. A tensão espalha-se para partes não relacionadas da tua vida. Ficas mais irritadiço, distante, um pouco falso. Começas a reescrever na tua cabeça as intenções da outra pessoa sem lhe dares qualquer hipótese de responder. O teu medo da conversa torna-se, em silêncio, maior do que a própria conversa.

É por isso que os passos exatos que dás logo a seguir à constatação importam mais do que as semanas que passaste a evitar.

Passos concretos: do pavor a fazê-la

O primeiro passo prático não é falar. É despejar. Tira cinco a dez minutos e escreve, de preferência à mão, tudo aquilo que tens medo que esta conversa possa desencadear. Sem filtro. “Vão achar que sou carente.” “Posso chorar.” “E se me deixarem?” “E se o meu chefe achar que sou complicado.”

Depois, faz um círculo àquilo que são factos e sublinha o que são medos. Normalmente, quase tudo fica sublinhado. Isso é uma boa notícia. Medos dão para trabalhar. Quando estão no papel em vez de a rodopiar na tua cabeça, consegues respirar um pouco mais fundo. O teu corpo recebe a mensagem: isto é uma situação, não um monstro.

Só depois decides o objetivo exato da conversa numa frase simples. Não três. Uma.

Talvez o teu objetivo seja: “Quero que encontremos uma forma justa de partilhar o crédito nos projetos.” Ou “Quero dizer-te porque é que aquela piada me magoou, para não ficar entre nós.” Ou “Preciso de ser honesto: não estou feliz nesta função e quero perceber que opções existem.” Repara no que isto não é. Não é “Vou resolver tudo.” Não é “Eles vão finalmente entender-me na perfeição.”

Quando tens o teu objetivo de uma linha, escolhes o canal. Algumas conversas têm de ser cara a cara. Outras podem começar com uma mensagem que prepara o terreno: “Há uma coisa sobre a qual tenho querido falar. Podemos arranjar 20 minutos amanhã?” Esse pedido pequeno e claro é a ponte para sair da evitância. Ainda não precisas do discurso todo. Só precisas de marcar um momento.

Os planos desfazem-se onde os humanos começam: no sistema nervoso. Por isso, planeias também para o teu corpo. Decide: vais ficar de pé ou sentado? Ter água por perto? Escrever uma abertura de três linhas que quase possas ler se ficares bloqueado. Por exemplo: “Tenho guardado isto há algumas semanas e andado a evitá-lo, e arrependo-me. Importo-me com a nossa relação, por isso quero ser honesto sobre como me tenho sentido.”

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sempre. Improvisamos, tropeçamos, falamos depressa demais. Mas cinco minutos a ensaiar em voz alta, sozinho, muda-te do pavor vago para a memória muscular. O objetivo não é soar impecável. O objetivo é dar ao teu cérebro assustado uma prova de que consegues sobreviver a dizer a primeira frase.

Às vezes, a parte mais corajosa não é a conversa em si; é o momento em que finalmente deixas de permitir que o medo marque a tua agenda.

  • Clarifica um objetivo simples para a conversa, numa frase.
  • Escreve os teus medos para deixarem de conduzir a partir do banco de trás.
  • Marca uma hora e um canal específicos, em vez de esperares “pelo momento certo”.
  • Prepara uma abertura de três linhas em que te possas apoiar quando os nervos dispararem.
  • Depois de terminar, tira cinco minutos para reparar no que lidaste melhor do que esperavas.

Viver com conversas que te assustam (e fazê-las na mesma)

Não vais tornar-te, de repente, na pessoa que adora conversas difíceis. Esse não é o objetivo. A verdadeira mudança é passares de “eu fujo disto” para “eu consigo caminhar na direção disto, mesmo a tremer”. Sempre que o fazes, a imagem que tens de ti melhora um nível. Começas a confiar que consegues lidar com fricção sem te traíres a ti próprio.

As conversas que tens evitado raramente são apenas sobre logística ou opiniões. São sobre se acreditas que as tuas necessidades, os teus limites, a tua perspetiva merecem um lugar na sala. Quando finalmente falas, não estás apenas a resolver uma situação. Estás a votar na tua própria voz.

E também te podes surpreender. Às vezes, aquilo para o qual escreveste dez finais desastrosos cai com um simples e calmo: “Obrigado por me dizeres. Não fazia ideia.” E, de repente, as semanas de pavor parecem estranhamente desproporcionais.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Identificar o padrão de evitância Reparar em adiamentos repetidos, desculpas e ensaios mentais cada vez maiores Dá linguagem ao que está a acontecer, em vez de apenas sentir “ansiedade”
Definir um objetivo de uma linha Escolher um único resultado claro que queres obter da conversa Evita divagações e reduz a pressão de “resolver tudo” de uma vez
Preparar o corpo e as palavras Guião curto, contexto escolhido e apoio simples ao sistema nervoso Torna os primeiros 60 segundos exequíveis, que normalmente são a parte mais difícil

FAQ:

  • Pergunta 1 E se a outra pessoa se recusar a ter a conversa?
  • Pergunta 2 Como começo se sentir que vou chorar ou ficar zangado?
  • Pergunta 3 Mensagens de texto ou email são alguma vez aceitáveis para uma conversa difícil?
  • Pergunta 4 E se a conversa correr mal e eu me arrepender de ter trazido o tema?
  • Pergunta 5 Como deixo de evitar estas conversas no futuro?

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