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Cientistas comportamentais afirmam que pessoas que andam mais rápido que a média apresentam traços de personalidade semelhantes, segundo vários estudos.

Mulher a correr numa rua com pessoas e um homem sentado a escrever.

Laptop a bater na mala, olhos fixos em frente, a serpentear entre carrinhos de bebé e turistas com a determinação silenciosa de alguém em missão. Já viu essa pessoa. Talvez até seja essa pessoa. Cidade após cidade, campus após campus, cientistas do comportamento começaram a cronometrar estes caminhantes e a anotar o que observam. O ritmo não é aleatório. Diz alguma coisa. Não apenas sobre forma física ou estar atrasado, mas sobre como o cérebro está “cablado”, como uma vida é vivida e como alguém vê o seu próprio futuro. A investigação aponta sempre na mesma direção, vezes sem conta. Os caminhantes rápidos não são quem pensa que são.

O que os cientistas do comportamento realmente veem quando cronometram os seus passos

Em corredores de laboratório e em ruas movimentadas, os investigadores fazem algo que parece quase demasiado simples para ser ciência: observam a forma como as pessoas andam. Medem quantos segundos demoram a percorrer uma determinada distância. Comparam com a média para uma dada idade e género. E depois perguntam: quem são as pessoas que se movem mais depressa do que a multidão?

Em estudos de grande escala, o mesmo padrão continua a surgir. As pessoas que, naturalmente, andam mais depressa tendem a reportar níveis mais elevados de motivação, orientação para objetivos e aquilo a que os psicólogos chamam “conscienciosidade”. É mais provável que se descrevam como impacientes com atrasos, rápidas a decidir, por vezes até “inquietas”. Os pés contam uma história antes da boca.

Um estudo de campo famoso em Nova Iorque, Londres e outras 29 cidades cronometrou literalmente peões com um cronómetro escondido. As cidades com caminhadas mais rápidas foram também as que pontuaram mais alto em atividade económica e pressão do tempo. Ao ampliar para o nível individual, as coisas tornam-se ainda mais marcantes. Em investigação publicada na JAMA, cientistas acompanharam dezenas de milhares de pessoas ao longo de anos. Quem andava mais depressa do que a média não só tendia a ser mais extrovertido e a planear mais o futuro, como também tinha melhor saúde autoavaliada e menor mortalidade por todas as causas.

Noutro estudo, participantes usaram acelerómetros na anca durante dias, registando cada passo. Quando os investigadores cruzaram os dados de marcha com questionários de personalidade, a sobreposição era difícil de ignorar. Os caminhantes mais rápidos pontuavam mais alto em traços associados a ambição e fiabilidade. Era mais provável sentirem-se “contra o relógio”, mesmo ao fim de semana. A marcha deles era como uma impressão digital de personalidade em movimento no espaço.

Porque é que algo tão mundano como a velocidade a andar estaria tão ligado ao carácter? Os cientistas do comportamento apontam para uma mistura de biologia e cultura. Parte é capacidade física: corpos mais aptos conseguem deslocar-se mais depressa com menos esforço. Mas a ligação mais profunda passa por como processamos o tempo. Pessoas com um relógio interno mais rápido sentem a espera como mais desagradável. O cérebro empurra-as para cortar intervalos mortos, manter as coisas a avançar, terminar tarefas. Esse ritmo interior transborda silenciosamente para tudo: e-mails, conversas e, sim, a forma como atravessam a rua.

Como os caminhantes rápidos pensam, decidem e navegam o mundo

Os caminhantes rápidos raramente descrevem o seu ritmo como uma escolha. Parece natural. São os que chegam cinco minutos mais cedo “por acaso”, os que fazem ziguezague à volta de grupos que bloqueiam o corredor. Quando os cientistas do comportamento os entrevistam, surge uma frase recorrente: “Odeio perder tempo.” Essa frase tem menos a ver com cultura da produtividade e mais com desconforto perante zonas mortas no dia.

No quotidiano, isso aparece em pequenos momentos reveladores. O caminhante rápido é a pessoa que começa a procurar a fila mais curta no supermercado antes sequer de chegar às caixas. Nos escritórios, é quem já vai a meio do corredor enquanto os outros ainda arrumam as coisas. Um estudo sobre hábitos de deslocação encontrou que os “caminhantes muito rápidos”, segundo autoavaliação, também tendiam a fazer multitarefa em movimento: responder a mensagens, planear mentalmente o dia, até ensaiar conversas difíceis enquanto avançavam.

Juntando estas peças, surge um perfil. Em média, quem anda mais depressa mostra maior autodisciplina e um sentido de urgência mais forte. É mais provável definir objetivos de longo prazo e acompanhar o progresso. Dados comportamentais sugerem que estas pessoas subestimam quanto tempo as tarefas vão demorar, o que as leva a apertar a agenda e acabar a correr de um ponto A para um ponto B. A velocidade ao andar torna-se um sintoma visível de um estado mental invisível: a vida é algo por onde se avança ativamente, não algo em que se deriva.

Há também uma camada biológica. Investigação com imagiologia cerebral e medidas fisiológicas ligou a marcha mais rápida a sistemas cardiovasculares mais saudáveis, melhor oxigenação do cérebro e função executiva mais apurada. Isto não significa que todo o caminhante rápido seja um génio estratégico. Significa que as pessoas que mantêm um passo vivo até à meia-idade e além tendem a ser aquelas cujos corpos e cérebros estão alinhados com estar “ligados”. Caminhantes lentos podem, claro, ser igualmente perspicazes ou ambiciosos, mas, ao nível populacional, as curvas sobrepõem-se mais do que o acaso faria prever.

Consegue mudar a sua velocidade a andar… e o que acontece se o fizer?

Aqui é que a coisa fica interessante. A velocidade ao andar não só revela personalidade; também a pode influenciar. Quando cientistas pediram a voluntários que acelerassem ou abrandassem o passo por uma curta distância, aconteceu algo estranho. As pessoas que, intencionalmente, andaram mais depressa reportaram sentir-se mais alertas, mais decididas, até ligeiramente mais confiantes no fim do corredor.

Isso levou alguns investigadores a testar “treino de tempo”. Os participantes foram convidados a andar a um ritmo vivo - cerca de 100 a 120 passos por minuto - durante alguns minutos, várias vezes por dia. Não por fitness, mas como um empurrão comportamental. Ao longo de semanas, muitos relataram mudanças subtis: menos indecisão em pequenas escolhas, mais energia de manhã, uma sensação de “despachar o assunto”. Sejamos honestos: ninguém faz realmente isto todos os dias. Ainda assim, as experiências sugerem uma ideia simples. Mova-se como alguém que sabe para onde vai, e a mente começa a acompanhar.

Se quiser experimentar o seu próprio tempo, o método é preciso mas simples. Escolha um percurso familiar: da porta de casa à esquina, da secretária à máquina de café. Cronometre uma vez o seu ritmo normal. Depois faça-o de novo, com 10–15% mais passos, sem correr. Mantenha os ombros relaxados e o olhar em frente; o objetivo não é parecer stressado, apenas decidido. Repita este “circuito vivo” uma ou duas vezes por dia durante uma semana. Repare não só nas pernas, mas nos pensamentos: planeia mais? divaga menos?

A armadilha em que muita gente cai é transformar a velocidade num distintivo moral. Caminhantes rápidos não são “melhores pessoas”, e caminhantes lentos não são preguiçosos por defeito. Algumas pessoas andam devagar porque são observadoras, estão lesionadas, cuidam de uma criança, ou simplesmente escolhem um ritmo de vida mais suave. Outras correm para todo o lado porque a ansiedade lhes morde os calcanhares. Os cientistas do comportamento alertam contra julgar desconhecidos pelos segundos que demoram a chegar à passadeira. Só vemos o ritmo, não a história.

O que ajuda mais é usar a velocidade a andar como espelho, não como veredito. Se está sempre a disparar, isso pode sinalizar problemas com limites, descanso ou dizer não. Se se move como se o tempo fosse infinito, isso pode refletir medo de começar coisas ou baixa energia que merece um check-up. Numa rua cheia, estas nuances desaparecem. À escala de uma vida, importam. Num dia calmo, pode até brincar com os dois modos: uma caminhada rápida e focada, outra lenta e espaçosa, reparando em como cada uma afina os seus pensamentos.

“A tua velocidade a andar é como um título que o teu corpo escreve sobre a forma como te moves no tempo. Não tens de acreditar nele, mas não podes fingir que não diz nada.”

Especialistas em comportamento sugerem muitas vezes usar pequenos sinais físicos como âncoras de autoconsciência. O ritmo da caminhada é um desses sinais. Se se apanha a fazer marcha apressada em todos os momentos, isso é dado. Se fica atrás da sua própria vida, isso também é dado. Usá-lo não significa obsessão com cada passo. Significa, de vez em quando, recuar e perguntar, em silêncio: o meu corpo está a corresponder à vida que quero, ou à vida em que caí?

  • Repare no seu ritmo “por defeito” em dias neutros, não só quando está atrasado.
  • Use caminhadas curtas e rápidas para aumentar o foco antes de tarefas que o assustam um pouco.
  • Equilibre passadas rápidas com caminhadas deliberadamente lentas para descomprimir o sistema nervoso.
  • Lembre-se de que condições de saúde, humor e cultura também moldam a forma como se move.
  • Deixe que a velocidade a andar seja uma pista, não uma sentença, sobre quem se está a tornar.

O que o seu ritmo revela discretamente sobre o seu “eu” futuro

Há um momento em muitos destes estudos que não aparece nos gráficos. Um investigador vê um adulto mais velho avançar por um corredor mais depressa do que pessoas com metade da idade. Sem atletismo dramático, apenas um passo constante e confiante. O cronómetro marca, e toda a gente na sala sabe o que os números costumam significar: maior probabilidade de viver mais tempo, manter independência, conservar uma mente mais afiada. A pessoa ata o atacador e não faz ideia de que a sua caminhada quotidiana acabou de prever uma fatia do seu futuro.

Andar depressa, estatisticamente, está associado a melhores resultados de saúde, mas também espelha uma postura interior perante o tempo. Pessoas que se movem com passo vivo tendem a agir como se os dias contassem. Espremem-nos - por vezes demais. Caminhantes lentos habitam as mesmas horas de forma diferente, com mais espaço para reparar e divagar. Nenhum estilo é “certo”. O que a ciência do comportamento sugere, porém, é que estar inconsciente do seu tempo é uma oportunidade perdida. Num passeio cheio, o ritmo parece logística. À escala de décadas, pode parecer um padrão de escolhas.

Numa plataforma de comboio, veja como as pessoas se movem quando o horário muda. Algumas aceleram instantaneamente, procuram saídas, recalculam. Outras abrandam, quase em protesto, esticando o momento. Não são apenas reações aos comboios; são hábitos mentais tornados visíveis em músculo e passada. Todos já tivemos aquele instante em que andamos mais depressa porque nos importamos com o que vem a seguir, ou mais devagar porque não queremos chegar. Numa noite calma, pode fazer a si próprio uma pergunta desconcertantemente simples: se alguém filmasse a minha caminhada durante 10 segundos, o que é que adivinharia sobre aquilo que eu valorizo? A resposta não é científica. É algo mais inquietante e interessante: é honesta.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
A velocidade a andar espelha traços de personalidade Em vários estudos, caminhantes mais rápidos pontuam mais alto em conscienciosidade, urgência e orientação para objetivos. Ajuda a ler os seus próprios hábitos e a perceber porque atravessa os dias da forma como atravessa.
O ritmo prevê saúde e longevidade Caminhantes com passo vivo têm frequentemente melhor saúde cardiovascular e menor risco de mortalidade, mesmo controlando a idade. Transforma uma ação diária simples num sinal prático para o bem-estar a longo prazo.
Pode “afinar” o seu tempo Caminhadas curtas, intencionalmente rápidas ou lentas, podem alterar humor, foco e sensação de controlo sobre o tempo. Oferece uma forma fácil, sem tecnologia, de experimentar energia e mentalidade.

FAQ

  • Andar depressa é sempre sinal de stress? Nem sempre. A investigação mostra que muitas vezes reflete energia, boa forma e foco em objetivos, embora em algumas pessoas também possa ser impulsionado por ansiedade ou pressão do tempo.
  • Caminhantes lentos também podem ser ambiciosos e bem-sucedidos? Sim. A personalidade é complexa. Algumas pessoas muito bem-sucedidas movem-se devagar no dia a dia e canalizam a sua motivação para a velocidade mental, e não física.
  • O que conta como “mais rápido do que a média” nos estudos? Os cientistas costumam olhar para a velocidade de marcha relativamente à idade e ao género, frequentemente os 20–25% mais rápidos de uma amostra.
  • Se eu começar a andar mais depressa, a minha personalidade muda? Não de um dia para o outro, mas mudar intencionalmente o seu ritmo pode influenciar o quão alerta, decidido e motivado se sente em certos momentos.
  • Devo preocupar-me se, naturalmente, ando devagar? Não por defeito. Se o seu ritmo baixou de repente, ou se se sente invulgarmente cansado, vale a pena falar com um médico; caso contrário, o seu tempo é apenas uma pista entre muitas.

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